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quinta-feira, setembro 29, 2011

Homenagem a Joaquim Maria Machado de AssisBrasil


A Quimera da Felicidade(...) do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma cousa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das cousas. Tal era o espectáculo, acerbo e curioso espectáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que não lhe podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

Machado de Assis, in 'Memórias Póstumas de Brás Cubas' Link

Homenagem a José Maria Latino Coelho (1825-1891)


José Maria Latino Coelho (1825-1891) nasceu em Lisboa e faleceu em Sintra. Formou-se em Engenharia Militar, seguindo a carreira das armas. Chegou a general e, tendo aderido ao Partido Republicano, foi eleito deputado. Exerceu funções como Ministro da Marinha e como professor da Escola Politécnica de Lisboa. Notabilizou-se com obras de foro histórico e ensaístico. Fez uma versão de A Oração da Coroa de Demóstenes (1877), com um estudo introdutório intitulado «A Civilização da Grécia». Este estudo foi contestado por Oliveira Martins. Obras: História Política e Militar de Portugal, desde Fins do Século XVIII até 1914 (Lisboa, 3 vols. publicados entre 1874-1891) Luís de Camões (biografia, Lisboa, 1880), Vasco da Gama (biografia, Lisboa, 1882), Marquês de Pombal (biografia, Lisboa, 1904), Garrett e Castilho (Lisboa, 1917), Tipos Nacionais (Lisboa, 1919), Cervantes (biografia, Lisboa, 1919), Arte e Natureza (Lisboa, 1923) e Literatura e História (Lisboa, 1925).
Se tivesses baqueado aos ecos da batalha
Vendo igual decisão nos bravos da fileira!...
Se, ao beijares o pó, tivesses, por mortalha,
A bandeira da Pátria – a que já foi bandeira!...

Se aqui, onde nasceste, e onde rebenta a flor
Nos impérvios da seria, à luz do Sol radiante,
Pudesses contemplar um íris salvador,
Ao voltar para o céu a pupila expirante!...

Feliz, feliz de ti! Felizes nós, também!
Que unir, no extremo alento, a boca aos lábios pulcros
Da mão que nos criou, da Pátria – a santa mãe,
É ver o Sol da aurora à beira dos sepulcros!

Eu, tão chegado à morte – eterna companheira!
Espero que amanhã, no mundo sideral,
Aqueles que adorei, durante a vida inteira,
Os tenha em seu regaço essa amante ideal!

terça-feira, setembro 27, 2011

Ramalho Ortigão(Porto, 24 de Outubro de 1836 — Lisboa, 27 de Setembro de 1915


José Duarte Ramalho Ortigão (Porto, 24 de Outubro de 1836 — Lisboa, 27 de Setembro de 1915) foi um escritor português.
José Duarte Ramalho Ortigão, nasceu no Porto, na Casa de Germalde, freguesia de Santo Ildefonso. Era o mais velho de nove irmãos, filhos do primeiro-tenente de artilharia Joaquim da Costa Ramalho Ortigão e de D. Antónia Alves Duarte Silva Ramalho Ortigão.

Viveu a sua infância numa quinta do Porto com a avó materna, com a educação a cargo de um tio-avô e padrinho Frei José do Sacramento. Em Coimbra, frequentou brevemente o curso de Direito, começando a trabalhar como professor de francês no colégio da Lapa, no Porto, de que seu pai era director, e onde ensinou, entre outros, Eça de Queirós e Ricardo Jorge. Por essa altura, iniciou-se no jornalismo colaborando no Jornal do Porto. Link

sexta-feira, setembro 09, 2011

Homenagem a Nicolau Tolentino


Nicolau Tolentino


Nicolau Tolentino de Almeida (1741-1811) nasceu em Lisboa. Estudou em Coimbra e, regressando a Lisboa, torna-se professor de retórica. Ensinou durante quinze anos, conseguindo então um lugar de oficial na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Foi autor de sonetos, odes, cartas e sátiras, que foram publicados em 1801 no volume Obras Poéticas. Foi um dissidente da Arcádia Lusitana. A edição das suas obras de 1861, organizada por José Torres, inclui algumas gravuras da autoria de Nogueira da Silva

Soneto
Aquela fé tão clara e verdadeira,
A vontade tão limpa e tão sem mágoa,
Tantas vezes provada em viva frágua
De fogo, i apurada, e sempre inteira;
Aquela confiança, de maneira
Que encheu de fogo o peito, os olhos de água,
Por que eu ledo passei por tanta mágoa,
Culpa primeira minha e derradeira,
De que me aproveitou? Não de al por certo
Que dum só nome tão leve e tão vão,
Custoso ao rosto, tão custoso à vida.
Dei de mim que falar ao longe e ao perto;
E já assi se consola a alma perdida,
Se não achar piedade, ache perdão.
Nicolau Tolentino

segunda-feira, agosto 22, 2011

Homenagem a Alexandre O'Neill (1924-1986


Periodo Literário
Literatura Contemporânea
Surrealismo

Biografia
Alexandre O'Neill nasceu no dia 19 de Dezembro de 1924 na cidade de Lisboa - Portugal. Filho do bancário António Pereira de Eça O'Neill de Bulhões e de Maria da Glória Vahia de Castro O'Neill de Bulhões, dona de casa, Alexandre, depois de concluir os estudos do Liceu, ingressa na Escola Náutica de Lisboa. Em 1944, após concluir o 1º ano, solicitou, junto à capitania de Lisboa, a cédula marítima, que lhe permitira exercer a função de piloto. O pedido lhe foi negado por causa da sua miopia.Link
Amigo
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O’Neill, in No Reino da Dinamarca


quarta-feira, agosto 17, 2011

Homenagem a Eugénio de Castro ( 1869-1944)


Eugénio de Castro e Almeida (1869-1944) nasceu e faleceu em Coimbra. Foi director da revista Arte entre 1895 e 1896, onde colaboraram, entre outros, Verlaine e Mallarmé. É considerado o introdutor do Simbolismo em Portugal. Obras: Cristalizações da Morte (1884), Canções de Abril (1884), Jesus de Nazareth (1885), Per Umbram (1887), Horas Tristes (1888), Oaristos (1890), Horas (1891), Sylva (1894), Interlúnio (1894), Belkiss (1894), Tirésias (1895), Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), A Nereide de Harlém (1896), O Rei Galaor (1897), Saudades do Céu (1899), Constança (1900), Depois da Ceifa (1901), A Sombra do Quadrante (1906), O Anel de Polícrates (1907), A Fonte do Sátiro (1908), O Cavaleiro das Mãos Irresistíveis (1916), Camafeus Romanos (1921), tentação de São Macário (1922), Canções desta Negra Vida (1922), Cravos de Papel (1922), A mantilha de Medronhos (1923), A Caixinha das Cem Conchas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas duma Candeia Velha (1925), Éclogas (1929), Últimos Versos (1938).
Link

quinta-feira, junho 23, 2011

Homenagem a Miguel Torga


Confiança
O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…
Miguel Torga

Homenagem José Saramago!


Põe na mesa a toalha adamascada,
Traz as rosas mais frescas do jardim,
Deita o vinho no copo, corta o pão,
Com a faca de prata e de marfim.

Alguém se veio sentar à tua mesa,
Alguém a quem não vês, mas que pressentes.
Cruza as mãos no regaço, não perguntes:
Nas perguntas que fazes é que mentes.

Prova depois o vinho, come o pão,
Rasga a palma da mão no caule agudo,
Leva as rosas à fronte, cobre os olhos,
Cumpriste o ritual e sabes tudo.


In Os Poemas Possíveis, Editorial Caminho, 3.ª ed., p. 81


José Saramago

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Vergilio Ferreira



Ser livre
"É mais difícil ser livre do que puxar a uma carroça. Isto é tão evidente que receio ofender-vos. Porque puxar uma carroça é ser puxado por ela pela razão de haver ordens para puxar, ou haver carroça para ser puxada. Ou ser mesmo um passatempo passar o tempo puxando. Mas ser livre é inventar a razão de tudo sem haver absolutamente razão nenhuma para nada. É ser senhor total de si quando se é senhoreado. É darmo-nos inteiramente sem nos darmos absolutamente nada. É ser-se o mesmo, sendo-se outro. É ser-se sem se ser. Assim, pois, tudo é complicado outra vez. É mesmo possível que sofra aqui e ali de um pouco de engasgamento. Mas só a estupidez se não engasga, ó meritíssimos, na sua forma de ser quadrúpede, como vós o deveis saber."
(Vergílio Ferreira, in 'Nítido Nulo')

domingo, fevereiro 10, 2008

A maravilha da Vida




A maravilha da Vida
"Desvia a tua atenção para a maravilha da vida e a vida se te não esgotará. Economiza os teus «porquês» e «para quê», porque como na embriaguez só já paras na morte. Mas se insistes em chegar a Deus, submete-o ao teu questionar e verás como ele fica desnorteado. Porque o teu questionar vai para lá dele e desvanece-se no vazio. Aceita a vida, que ela é bastante para qualquer questionar. E poderás então adormecer porque há aí verdade que chegue. Dorme."
(Vergílio Ferreira, in 'Pensar')